No podría haber quedado desempleada en mejor hora!  El jueves pasado comenzó la 30a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo y como todos los años las exhibiciones están a pedir de boca.  Hoy fue la vez de exhibir la película ganadora de la Mostra pasada, Cinema, Aspirinas e Urubús.  Selección especial Un Certain Regard de Cannes y uno de los films más bien escritos que he visto.  El director, Marcelo Gomes colaboró también con el film de Karim Ainouz, Madame Satã, otra obra prima.  Hace tiempo no veía una película brasileira con un tema universal (la amistad más allá de las diferencias culturales) tan bien contado!  Dos hombres se encuentran en el medio del nordeste de Brasil,  región de largas sequías y de una inigualable capacidad de supervivencia.  Uno de ellos es brasileiro.  El otro, alemán.  Juntos hacen un viaje de entendimientos, de conocimientos, de aprendizaje y tolerancia que va a marcar sus  vidas para siempre. Vean lo que encontré en internet escrito por Paulo Villaça http://www.cinemaemcena.com.br/crit_editor_filme.asp?cod=4876:
 
 
 
 
 
Cinema, Aspirinas e Urubus – Cinema, Aspirinas e Urubus, 2005
Dirigido por Marcelo Gomes. Com: Peter Ketnath, João Miguel, Hermila Guedes, Mano Fialho, Daniela Câmara, Paula Francinete, Irandhir, Osvaldo Mil, Fabiana Pirro.

Há uma simplicidade na história de Cinema, Aspirinas® e Urubus que encanta. Em sua superfície, o filme é pouco mais do que um road movie que traz dois homens com personalidades e visões de mundo diferentes convivendo um com o outro durante um certo período de tempo, enquanto viajam pelo interior nordestino (na década de 40) exibindo filmes publicitários que divulgam as proezas de um ‘novo’ medicamento conhecido como ‘aspirina’. Porém, como eu disse, o filme é isto apenas em sua superfície, já que a simples convivência de Johann e Ranulpho é o bastante para que o roteiro trace um painel sensível sobre miséria, choque de culturas, guerra e nossa aparentemente infindável capacidade de resistência.

Escrito por Karim Aïnouz, Paulo Caldas e pelo diretor estreante Marcelo Gomes, Cinema, Aspirinas® e Urubus enxerga o Brasil através de dois pontos de vista aparentemente conflitantes: o de Johann (Ketnath), que se mostra fascinado com tudo o que vê, já que mesmo os incidentes mais prosaicos o deixam maravilhado; e o de Ranulpho, que não enxerga virtude ou beleza em uma terra que o condenou à fome, à sede e à pobreza (‘No Brasil, nem guerra chega!‘, ele reclama). E como o cineasta faz questão de preencher o filme com figurantes locais e com atores desconhecidos, este retrato de um Brasil humilde acaba ganhando força e deixando a narrativa mais real: para um estrangeiro, é fácil se deixar arrebatar por uma iguaria regional; para nós, a vergonha de testemunhar o sofrimento de um compatriota torna esta sedução mais difícil.

Porém, o longa está longe de assumir uma postura de ‘denúncia’. Sim, suas mensagens são tocantes e convincentes, mas justamente por serem apresentadas de forma sutil, como se fossem apenas detalhes acrescentados casualmente em uma revisão do roteiro. Quando Johann encontra um sertanejo na estrada e pergunta se ele está indo ‘para lá ou para cá‘, numa oferta de carona, a resposta é simples: ‘Vou ficar aqui mesmo.‘. Nossa reação imediata a esta fala é o riso, evidentemente, mas pense um pouco no que acabou de acontecer e perceba o sutil significado do incidente: para o alemão, é impossível acreditar que alguém pudesse morar naquele lugar inabitável, enquanto o brasileiro encara a situação com uma resignação admirável, como se a dúvida do estrangeiro não fizesse sentido algum.

Aliás, a fotografia de Mauro Pinheiro Jr. realça a aridez das locações já pouco hospitaleiras ao trabalhar com dois aspectos essenciais: a superexposição, que salienta a temperatura sufocante, e a dessaturação de cores, que ajuda a ilustrar a falta de vida e alegria naquele ambiente. Da mesma forma, as cenas noturnas são rodadas com um mínimo de iluminação, afastando qualquer sugestão de civilização e modernidade.

Exibindo uma química impecável que contribui para o sucesso da narrativa, Peter Ketnath (que fala o português com um sotaque levíssimo) e João Miguel dividem a cena com naturalidade, estabelecendo uma dinâmica que conquista o espectador, atingindo seu ponto alto na cena em que, durante à noite e bêbados, discutem como agiriam caso estivessem lutando na guerra que, naquele momento, ameaça o mundo. É um momento engraçado e emocionante que comenta, com a delicadeza habitual do filme, a natureza bestial do conflito armado.

Miguel, em particular, surge como a grande revelação de Cinema, Aspirinas® e Urubus (ele também participou do recente Cidade Baixa): com um timing cômico perfeito, ele encarna Ranulpho como um homem bom, mas amargo. Sua insistência em negar carona para outro sertanejo que atravessa o caminho de Johann (que lhe oferecera transporte há pouco) pode, a princípio, denotar um egoísmo repulsivo, mas a verdade é que, já suficientemente experimentado na arte da sobrevivência, ele está apenas pensando em sua preservação, que poderia ser ameaçada por um adversário. Ainda assim, o filme evita a armadilha fácil de transformar o nordestino em alvo de piada fácil através de outra cena aparentemente simples, mas que permite uma leitura muito mais profunda: ao narrar sua passagem pelo Rio de Janeiro, Ranulpho comenta que ‘nordestino só serve para mangação‘ – e, se pensarmos nas vezes em que já fomos levados a rir de personagens como este, não poderemos negar a propriedade do que ele diz. Contudo, ao levar o público a rir de Ranulpho (até mesmo desta sua afirmativa), o longa praticamente faz um exercício de metalinguagem, revelando sua própria fragilidade neste aspecto – o que, paradoxalmente, fortalece sua mensagem. E como ignorar a beleza simbólica do plano em que Ranulpho estende a mão diante da lente do projetor e vê a imagem do Rio na palma de sua mão?

Esta é a virtude maior de Cinema, Aspirinas® e Urubus: divertir o espectador com sua leveza, mas, ao mesmo tempo, cutucar as feridas de uma sociedade desigual e preconceituosa. De acordo com os créditos do filme, o roteiro foi baseado em um ‘relato de viagem‘ feito por um certo ‘Ranulpho Gomes’ – e é esta informação que confere sentido ainda maior ao projeto. Todos os dias, vivenciamos acontecimentos que, sozinhos, pouco significam, mas que, no contexto de nossas existências, adquirem significação própria e revelam muito sobre quem somos. Assim, é apenas apropriado que Cinema, Aspirinas® e Urubus, com seu título absurdo e sua narrativa aparentemente corriqueira, seja, de fato, uma história real.

Advertisements