Tinha o olhar perdido.  Ali jogada no chão como se fosse um monte de lixo.  Carrinho de feira cheio de sacolas com latas vazias, dois cadernos de espiral, papelão, panos, pedaços de vida de alguma pessoa que decidiu não mais usar aquilo que agora se convirtira em seus pertences.  Mulher, alta, pele escura, mais para cinza que para morena, olhos pedintes, carentes de alguma atenção.  “Vocês conseguem me ver?”, parece que gritava.  “Olhem, estou aqui bem enfrente de todos.  Botei esse turbante feito de plástico e pano, esse vestido longo encima da saia vermelha que achei na rua.  Queria me sentir parte desse mundo que outrora fora meu.  Agora, não passo de uma estatística jogada na esquina da Jaú com Campinas.  Senhora, fale comigo.  Me diga Bom Dia.  Tudo em vão.  Já não se fazem mais humanos como antigamente.  O melhor mesmo é pirar”.  Não consegui mais olhar.  Meus olhos se encheram de lágrimas.  Poderia ser eu.  Um carro pára para eu atravessar.  Vou-me embora, com o coração feito lenha.  Já não se fazem mais humanos como antigamente.

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