O que você faria se tivesse 3 meses de vida?  Quando nos confrontamos com a morte, pensamos em tantas coisas que poderiamos ter feito, em outras que fizemos e que foram maravilhosas, nos beijos que não demos, nos abraços apertados que deixamos de dar.  Pensamos também nas pessoas que deixaremos e que não mais veremos.   É uma jornada interior que só quem está dentro sabe.  A vida começa a ter um significado e a  morte passa a ter outro, mais real, mais palpável.   Acho que enquanto ficamos mais experientes, vamos visualizando a morte como algo que pode sim acontecer e que faz parte de estar vivos.  O importante passa a ser o que faremos até ela chegar. 

Essa é a história de “Biutiful”, o novo filme de Alejandro González Iñárritu que chegou às salas depois de viajar por Cannes, Toronto e outros festivais.  Não é um filme daqueles que se assiste no verão.  Se é que isso existe.  Filme bom é bom de ver sempre!  Sou fan do cinema do Iñárritu.  Dessa vez ele está sem o seu companheiro Guillermo Arriaga, responsável pelos brilhantes roteiros de Amores Perros, 21 Gramas e Babel.  Dessa vez Iñárritu co escreve o roteiro de maneira tão bela, lírica, mas ao mesmo tempo tão crua.  Uma aula de escrita e de cinema.  Fotografia linda, silêncios necessários, roteiro bem costurado, personagens criados como só um maestro poderia fazer.

“Biutiful” conta a jornada de um pai, Uxbal, vivido por um dos grandes do cinema contemporâneo, Javier Bardem, e a queda livre que se desencadeia a partir de várias situações cotidianas na Barcelona lado B.  É um pai que quer deixar tudo acertado antes de partir, mas que se depara com situações que ele mesmo tem criado durante a vida.  Trabalha com imigrantes africanos de Senegal e com chineses que trabalham em condições precárias nas fábricas dos produtos piratas que muitos insistem em comprar.  Uma das cenas que mais me marcou é a despedida de um imigrante senegalês com a sua mulher.  Ele ia ser deportado e ela queria ir com ele.  “Você tem que ficar!  Você vai trabalhar de que lá em Senegal?  Nós somos jovens.  Ainda podemos nos ver no futuro.  Mas fique!”  É de cortar o coração.  Outra das belas cenas que comovem, foi a despedida dele com a filha.  Nessa altura, eu já estava aos prantos.  Apesar de toda essa vida underground, ele é um pai amoroso que mora com seus dois filhos (que bela atuação dos dois!).  A mãe deles é uma prostituta bipolar, viciada em drogas.  

Mas não vá pensar que Biutiful é um filme deprimente, para baixo.  Ele tem muito de compaixão, amor, perdão.  Se eu fosse dizer uma só palavra sobre ele, seria Amor.  É um filme sobre o amor que sentimos ainda, apesar de todas as desgraças e desventuras que a vida possa ter. 

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