Era para ter ficado num hotel, melhor dizendo, um hostal.  Ficamos em casa de um amigo que eu nunca tinha visto, mas com quem já tinha conversado pela internet. 

“Ciao Max!”, comecei o email.  “Gostaria muito de visitar a sua cidade com o meu marido e descobrir todas aquelas paisagens e cenas vistas nos filmes de Fellini”, continuei.  Adoro visitar lugares que não falem as línguas que falo.  Tentar entender pela expressão do corpo, o body language, como se diz em inglês.    

“Indra, ao ler o seu perfil, percebi que temos muito em comum”, disse Max. 

Lá fomos nós.  Meu marido e eu chegamos à estação de trem, bela, imponente, uma obra de arte para deleitar os olhos e o coração.  Fomos para a casa de Max, aquele desconhecido que abriu a sua casa, seu coração e sua vida para nós, também desconhecidos, mas abertos a novas experiências. 

Esse é o verdadeiro espírito dos relacionamentos do século 21.  Apesar do que muitos possam pensar, pode-se sim ter um relacionamento mais aberto, mais dado, mais humano por internet.  Uma pergunta vem à minha cabeça: devemos confiar mais num amigo “virtual” que num amigo “real”?  Não são duas realidades válidas?  O que faz que uma pessoa seja “mais real” na vida real?  Nesses tempos de várias realidades acontecendo paralelamente, acredito que o virtual é uma continuação do real, e que é de fato válida também. Não existem diferenças. 

Essa história da realidade e do virtual, me faz pensar também na ficção.  O que é ficção e o que é realidade?  Será que a história acima é real, sonho, ficção?  Tem uma cena no filme Ninho Vazio, de Daniel Burman, em que dois casais tomam café no terraço da sua casa.  A mulher de um tenta contar uma história de quando eles eram mais jovens, mas o marido interrompe dizendo que a história não é assim, que aconteceu de outro jeito.  O outro marido diz que ambos estão corretos, pois nós guardamos na memória recordações de fatos reais com leves adaptações, para dar maior realismo ao nosso passado.

Viagem, aventura, realidade, ficção.  Max foi uma verdadeira revelação para nós.  Uma pessoa que passou do virtual ao real em segundos.  Era como se nos conhecêssemos de anos.  A identificação foi instantânea.  Ele nos mostrou a sua cidade do ponto de vista de um local e para mim, isso vale muito mais que todos os livros de Lonely Planet ou o Frommer’s.  Nos mostrou que nessa vida devemos estar atentos a tudo, abertos a novas possibilidades, novos caminhos.

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