Uma das coisas que mais gosto é de andar pela cidade.  Pego poucos ônibus, para a minha feliciade e inveja de muitos.  Não é fácil o sistema de transporte de São Paulo.  Distâncias muito longas, poucos ônibus para muita gente, em fim, os problemas de todas as grandes cidades.  Prefiro andar.  Se ficar no máximo a 30 minutos de andada, lá vou eu!  Faço questão de ver, sentir o pulso das pessoas.  Pessoas conhecidas, pessoas de sempre, pessoas que moram, trabalham na área, gente que vive nos Jardins.  Prato cheio para mim que adoro gente. 

Hoje encontrei com uma dessas pessoas e ele ficou me olhando.  Nessa selva de pedra, onde todo mundo anda sem olhar nos outros, a pessoa em questão me olhou.  Foi um olhar curioso, um olhar amigável e talvez um “oi”.  Foi questão de segundos.  Eu o olhei de volta… um sorriso se desenhou no meu rosto sem querer.  Quanta gente já falou oi para ele?  Quanta gente já lhe deu um sorriso?  Quanta gente? 

Quando passei bem ao seu lado, as moças que o seguravam continuavam seu trabalho: “Vamos, mais um pouquinho…mais um passo”.  Eu não sei o que ele tem.  Imagino que uma doença degenerativa do sistema nervoso.  Não controla os movimentos dos músculos, não consegue segurar a sua cabeça, anda numa andadeira cheia de travesseiros para fazer o passeio mais agradável.  Só sei que o seu olhar está vivo.  Talvez o único que restou desse bonito rapaz que aparenta uns 35 ou 40 anos.  Da próxima vez que o vir, vou procurar fazer contato.  Gente assim faz a gente ver a vida de outra perspectiva, ver o maravilhoso que é poder andar, ver, sorrir voluntariamente.  Sequei as minhas lágrimas e continuei andando.  O semáforo estava verde.

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