Quando a corte portuguesa chegou ao Brasil, navios negreiros vindos da costa da África despejavam no Mercado de Valongo entre 18 000 e 22 000 homens, mulheres e crianças por ano.  Permaneciam em quarentena, para serem engordados e tratados das doenças.  Quando adquiriam uma aparência mais saudável, eram comercializados da mesma maneira como hoje boiadeiros e pecuaristas negociam animais de corte no interior do Brasil.  A diferênça é que, em 1808, a “mercadoria” destinava-se a alimentar as minas de ouro e diamante, os engenhos de cana-de-açúcar e as lavouras de algodão, café, tabaco e outras culturas que sustentavam a economia brasileira.

Ao visitar o local em 1823, Maria Graham, viajante inglesa e amiga da imperatriz Leopoldina, registrou no seu diário:

1o de maio de 1823: vi hoje o Valongo.  É o mercado de escravos do Rio.  Quase todas as casas desta longuíssima rua são um depósito de negros cativos.  Passando pelas suas portas à noite, vi na maior parte delas bancos colocados rente às paredes, nos quais filas de jovens criaturas estavam sentadas, com a cabeça raspada, os corpos macilentos, tendo na pele sinais de sarna recente.  Em alguns lugares, as pobres criaturas jaziam sobre tapetes, evidentemente muito fracas para sentarem.  

Os escravos a bordo dos navios negreiros eram considerados uma carga como outra qualquer.  Um exemplo.  No dia 6 de setembro de 1781, o navio inglês Zong, de Liverpool, saiu da África rumo à Jamaica com excesso de escravos a bordo.  Em 29 de novembro, no meio do Atlântico, sessenta negros já haviam morrido por doenças, falta de água e comida.  “Acorrentados  aos pares, perna direita com perna esquerda e mão direita com mão esquerda, cada escravo tinha menos espaço do que um homem dentro de um caixão”, escreveu F. O. Shyllon, autor de Black slaves in Britain.  Temendo perder toda a carga antes de chegar ao destino, o capitão Luke Collingwood decidiu jogar ao mar todos os escravos doentes ou desnutridos.  Ao longo de três dia, 133 negros foram atirados da amurada, vivos. 1808, Capítulo 20 – A Escravidão

Ontem terminei de ler 1808, belo relato dos acontecimentos que fizeram o Brasil de hoje.  Um dos capítulos mais difíceis de lêr foi o da Escravidão, esse genocídio que teve lugar no Brasil e que muita gente não lembra.  Foi assim que se formou essa nação, essa república.  Parece mentira esses negros que foram escravizados, humilhados, massacrados, privados de educação e saúde, ainda hoje estejam lutando para alcançar sair desse estado.  Curioso como a história da colonização brasileira tem vezes que parecia a história da colonização da América Latina e do Panamá.  Saqueos, Destruição, Sangue, Humilhação que todos os países compartilhamos em silêncio.  Europa parece não lembrar do assassinato em massa.     Nem os européios estão interessados em saber a história sangrenta que seus países deixaram de legado em América.

Como é possível fazer uma república de um país vastíssimo, desconhecido ainda em grande parte, cheio de florestas, infinitas, sem população livre, sem civilização, sem artes, sem estradas, sem relações mutuamente necessárias, com interesses opostos e com uma multidão de escravos, sem costumes, sem educação, nem civil nem religiosa e cheios de vícios e hábitos antisociais?  Capítulo 27, O Novo Brasil.

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