Abbas Kiarostami é um diretor que não tem finais.  Ou pelo menos, não os finais que todo mundo desejaria assistir.  Final feliz, infeliz, catastrófico? Esqueça.  No filme anterior filmado na região italiana de Toscana, Certified Copy (com a maravilhosa Juliette Binoche) também não tinha final.  Cada um de nós teve de fazer a sua lição e pensar o filme, interagir com ele, criar o final da história.

Não deu para assistir Like Someone in Love na última Mostra de Cinema de São Paulo.  Deixei para assistir sem as intermináveis filas, nem os mesmos chatos de papo-cabeça-da-mostra.  Preferi esperar para assistir com as mesmas velhinhas do Reserva Cultural, as minhas velhinhas da primeira sessão, das 14 horas.

Conversando com amigos, fiquei indagando o por que Irã tem tanta produção cultural e um cinema que está entre os melhores do mundo.  Taste of Cherry, A Separation, About Eli, o mesmo Certified Copy, só para mencionar alguns dos mais belos filmes….ou a literatura de Zoya Pirzad, aclamada no mundo por sua maneira tão poética de escrever.  Ao mesmo tempo, o que conhecemos desse distante país com tantos conflitos religiosos e um presidente (Mahmoud Ahmadinejad) que acredita que Israel deve ser aniquilado e extirpado da Terra e que se diz a favor das armas nucleares?  Irã, um país que tem pessoas como nós, com problemas de relacionamento, saúde, envelhecimento…

Like Someone in Love se passa no Japão.  Um Japão de meninas lindas, apaixonadas dos meninos menos prováveis…escort girls que também fazem faculdade…de Sociologia!  Um Japão de gente sozinha, solitária que luta da melhor maneira para preencher esse vazio que deixa a solidão que Ella Fitzgerald ou Nat King Cole conheceram bem.  É um Japão que poderia ser São Paulo, ou Berlim, Panamá ou Irã.  É um Kiarostami iraniano e universal, antenado com os rumos dessa sociedade que, segundo alguns, está por conhecer o final da história…esse final de história que ninguém quer conhecer.  Talvez isso seja a grande sacada de Kiarostami ao pôr o espectador como que dentro das cenas, como se nós estivéssemos conversando com os protagonistas (dentro do carro, dentro da sala, sentado ao lado deles).

E falando de se sentir dentro da sala, destaco aqui a sala do Prof.  Watanabe.  Um sonho de sala, ou de apartamento, com livros e referências culturais que dão esse cozy feeling que tanto me agrada.

Advertisements