Do conto A princesa russa.

Uma noite dessas eu estava na minha cubata , a acender o xipefo. Foi quando uma sombra me assustou à minha trás. Olhei, era a senhora. Trazia uma vela e aproximou devagarinho. Espreitou o meu quarto, conforme a luz dançava nos cantos. Fiquei todo atrapalhado, envergonhado até. Sempre ela me via naquela farda branca que eu usava no serviço. Agora, eu estava ali de cabedula, sem camisa nem respeito. A princesa circulou-se em volta e depois, com meu espanto, sentou na minha esteira. Já viu? Uma princesa russa sentada numa esteira? Ela ficou ali uma quantidade de tempo, só sentada, permanecida. Depois, perguntou, com aquela maneira dela falar o português:

– Afinhal, vaciê vive àqui?

Eu não tinha resposta. Comecei de pensar que ela estava doente, a cabeça dela estava a trocar os lugares.

– Minha senhora: é melhor voltar na sua casa. Este quarto não é bom para a senhora.

Ela não deu resposta. Voltou a perguntar:

– E par si é bom?

– Para mim chega. Basta um tecto a tapar-nos do céu.

Ela corrigiu minhas certezas. Os bichos, disse, é que usam tocas para esconder. Casa de pessoa é lugar de ficar, o sítio onde semeamos as nossas vidas. Perguntei se na terra dela havia pretos e ela fartou de rir: ó Fortin, você faz cada perguntas! Admirei: se não havia pretos quem fazia os trabalhos pesados lá na terra dela? São brancos, respondeu. Brancos? Mentira dela, pensei. Afinal, quantas leis existem nesse mundo? Ou será que a desgraça não foi distribuída conforme as raças? Não, não estou a perguntar a si, padre, só estou a discutir-me sozinho.

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