Em 20 de março de 1981, uma sexta-feira à noite, eu nem sei o que estava fazendo, mas provavelmente estivesse em casa escrevendo alguma carta para os meus pen pals espalhados pelo mundo.  Com 17 anos, curtia papéis de carta da loja da Hallmark na via Benetto, na minha cidade do Panamá e passava horas viajando no espaço, querendo conhecer lugares que os meus amigos descreviam nas cartas.  Foi nesse exato dia que se fez história em outro espaço sideral. O estádio do Morumbi recebia a mega banda do Freddie Mercury, Brian May, Roger Taylor e John Deacon.  Queen fez bonito.  Ficou na memória de quem assistiu.  O Fabio Massari devagou sobre o show e aqui vai um trechinho…

Queen, 20 de Março de 1981.  Esse não foi obviamente o primeiro show internacional a acontecer por aqui; Santana, Alice Cooper, Rick Wakeman, Genesis e Peter Frampton já haviam feito a cabeça de muita gente em suas visitas de sucesso – lotação esgotada em ginásios do país e alegria quase desesperada de gerações rockers praticamente virgens nessa dimensão “live”.  E o divisor de águas nesse sentido do circuito internacional de shows só se mostraria em toda sua evidência uns anos depois, em 1985, com o advento do primeiro Rock in Rio (que aliás testemunhou outro triunfo da banda de Freddie Mercury, no embalo das suas transcendentes apresentações pós-Live Aid).  Mas o concerto do Morumbi, além de forjar o caminho para as apresentações em grandes estádios de futebol, acabou por se impor como seminal e transformador para as gerações que o testemunharam e para aqueles que foram absorvendo ao longo dos anosas histórias e os registros daquela sexta-feira de rock no nosso quintal.

O Queen chegou ao Brasil com discos lançados e consumidos pela rapazeada (que se preparou para o evento basicamente decorando o petardo Live Killers, disco duplo a vivo lançado em 1979), e com algumas canções circulando pelas ondas do rádio.  A cobertura da imprensa foi ampla e entusiasmada, com grandes matérias em jornais e revistas; houve transmissão radiofônica e considerável cobertura televisiva.  No dia seguinte, já circulavam os cassetes com a gravação da apresentação; algumas semanas depois, lá estava a banda na capa da revista norte-americana Hit Parader, todos felizes da vida em cenário brasileiro; os vídeos do show do Morumbi começaram a surgir um tempinho depois.  Sendo a banda inglesa uma das mais colecionáveis (e pirateadas) da praça – apontados em dezembro de 2009 pela revista Record Collector como número 4 dentre os mais procurados pelos colecionadores, atrás só de Beatles, Stones e Bowie -, foi questão de pouco tempo para que os “produtos” derivados do show de 20 de março de 1081 começassem a circular.  Alguns desses discos e/ou DVSs figuram com destaque dentre as preferências dos entusiastas desse mercado alternativo.

Naqueles tempos de absoluta carência de eventos do tipo, ficar espremido por horas nas não-filas quilométricas que circulavam o estádio era pura diversão; assim como ouvir o espetacular anfitrião arriscar frases em português e, claro, iluminar o estádio com isqueiros na hora das baladas – a pergunta que não calava era por que tanta gente tem isqueiros à mão?

Segundo o jornal da época, eram 110 mil pessoas naquele dia de março de 1981 – para vários otimistas, eram 200 mil.  A sensação é a de que eram milhões e os (simplórios para os padrões de hoje) efeitos visuais e sonoros (cores básicas, gelo seco e barulho de nave espacial) eram fantásticos, puro Spielberg.  Ou Flash Gordon.

Naquele dia muita gente saiu da escola para ir ao show e no fim das contas tudo terminou numa aula – em apresentação esplendorosa, vibrante, o Queen veio para mostrar como se fazia, como eram as coisas nesse tal de rock das grandes esferas.  No embalo suingado e muitas vezes pesadão do seu hard rock glamuroso, o frontman cabuloso Freddie Mercury e seus comparsas acabaram por nos revelar todo um mundão de sensações e possibilidades.  De alguma maneira, parecia que agora estávamos prontos para o que desse e viesse.

O setlist.

We Will Rock You

Let Me Entertain You

Play The Game

Somebody To Love

I’m In Love With My Car

Get Down, Make Love

Need Your Loving Tonight

Save Me

Now I’m Here

Dragon Attack

Now I’m Here (Reprise)

Fat Bottomed Girls

Love Of My Life

Keep Yourself Alive

(solos)

Flash’s Theme

The Hero

Crazy Little Thing Called Love

Bohemian Rhapsody

Tie Your Mother Down

Another One Bites The Dust

Sheer Heart Attack

We Will Rock You

We Are The Champions

God Save The Queen

Para assistir, aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=6H8kkyOBtoQ

 

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